Domingo, Janeiro 21, 2007

Das linhas

Construo as palavras em seu eco, como labirinto ressonante de pura linguagem. Há, nele, um dialeto perdido que se constrói na linha reta, na linha que se recusa ser curva que converte imagem em matéria fugaz e sem forma, mas na forma que se sustenta e traz a ela tantas outras formas que ganha sem ceder à discrepância em sua própria imagem. A linha reta é a linha aditiva, violentamente arquitetônica. Sua idéia de pluralidade é sufocada por sua linearidade clara, contínua, incapaz de divagar, de perder a própria forma, de perder-se. A linha reta é incapaz de extrapolar ou de estacionar-se no círculo, progride, mas sua direção é única e ruma ao infinito lugar-nenhum vinda de um infinito lugar-nenhum, estonteante. Se houvesse um predador de linhas, a linha reta seria extinta, ela é previsível, jamais tomará outra direção que não aquela que fora determinada pelos dois míseros pontos que a determinam. A linha curva é dinâmica ao mesmo instante que é estática no círculo... A linha curva é completa...

Sábado, Setembro 23, 2006

Harmonia

Há um pulso que preenche o espaço mínimo entre nossos pés e a própria terra. É um rufar ritimado e simples, porém muito eficaz em sua ordem de perguntas e respostas sem fim ao ventre do pó, da lama e das rochas. Assim, embora nunca tenha tocado sequer o lodo que cobre essas rochas, eu compreendo o que há entre nós, o que não há e o que temo estar para mim velado para todo um sempre.

Sábado, Setembro 16, 2006

A primeira nota do Réquiem

O que tem a me dizer, minha protegida?
Você vê, nossas montanhas agora são pó, nossos selos, ruínas
Pode ver agora, nossas fontes congeladas; pelos céus, varias chamas ardem
Isso não nos importa nesse momento
Nos contornos da eterna torre, brumas invencíveis pairam
Nunca irão passar desse ponto
Não ousarão causar mais estragos

Descance, minha protegida.
Descance por que ainda adormeço
Meu dia, minha hora se aproxima
Do que nos importa se nossas florestas estão em chamas
Do que nos importa se nosso outono se foi
Nada disso nos imprime sentido
O poder de destruir é uma vaidade que não significa nada
O que quer que possam destruir posso refazer em instantes

Descance
Descance que essa noite é infinita
Descance que sua jornada será eterna
Descance por que ainda durmo
Eu não comecei a minha guerra

Sábado, Agosto 26, 2006

Dissonância

...Onde está você? Preciso que retorne agora de sua viagem sem fim... Faça parar, faça parar antes que tudo se torne turvo denovo. Tudo tão rápido. Eu preciso colocar um fim em tudo isso. Uma pausa. Um momento sequer. Silêncio. Silêncio... Silêncio. Faça parar agora. Faça com que tudo se cale. Silêncio. Faça parar. Onde está você? Náusea. Tudo passa tão rápido. Faça parar. Faça parar agora. Eu preciso... Por favor... faça... agora...


Faça parar esse vórtice irritante. Coloque um fim em tudo isso. Faça agora. Preciso que retorne. Volte para meu lado.

Fumaça. Cinzas. Fuligem. Todas giram no ar. Giram... giram... e passam por mim. Imagens. Imagens desconexas, sem fim.

Faça parar esse vórtice agudo, irritante.
Faça parar
Faça isso agora!

Estou queimando. Imagens. Sons. Desconexas. Agudos.
Parem...
Fumaça. Raios. Nuvens negras. Tempestades. Fogo. Tremores. Imagens desconexas. Água. Fumaça. Faça parar. Pare com tudo! Faça tudo parar de girar. Agora! Agora! Faça parar.

Faça parar de girar
Faça parar de passarem por mim todas essas cenas
Interrompa esse barulho maldito
Agora! Faça parar de girar! Silêncio! Faça parar...
Fumaça...

Domingo, Agosto 06, 2006

Vitrais

Abra seus olhos, há muito pouco para ver, mas sustente-os abertos...

Existem poucos sentimentos que lhe permitiriam retirar seus olhos por completo desse mundo, mantê-los à meia luz é um risco à vontade, capaz de fazê-la em pedaços e forçar os seres aos extremos de uma verdadeira decisão. Em toda nobreza da idealidade, deveriamos desviar nossos olhares sempre que precisassemos de alguma força, todavia com alguma parcimônia. É uma verdadeira pena que a vontade é feita de vidro e não possua a maleabilidade necessária para acompanhar essas mudanças. Aos seres desprovidos de sua vontade só resta um estranho tipo de calma incondicional ou um persistente sentimento de frustração que irá lhes acompanhar por toda extensão de suas vidas.

Um belo par de porcarias se querem minha opinião. Prefiro me arriscar na meia luz e tentar reforjar minha vontade em sua trama dúbia.

Domingo, Julho 30, 2006

Da noite, das rochas, da água e do lodo

Há momentos de puro silêncio minha criança...

estes momentos duraram demais

e por que não dizer que duram?

por que sei que tudo possui seu tempo e o tempo do silêncio está chegando ao fim

ele nunca teve início

as folhas estão se movendo e, quando se movem, o mundo muda...

Nosso mundo nunca é o mesmo

o silêncio se esvai como uma cortina de gás embriagante por fendas solitárias no escuro

Nunca houve um momento de silêncio

escuto os estalos finos que fazem duas brisas quando se tocam no infinito...

Quero chorar, mas não tenho por quê, ou quem...

há muito já está chorando

Se ao menos soubesse o que estou esperando...

você sabe e se não fosse tão preguiçoso se lembraria

Até mesmo as sombras fluem como o vento

Terça-feira, Maio 30, 2006

Apenas algo

Sim eu também posso sentir. Está no ar, no movimento discreto das cortinas, no estalo seco da madeira...

O tecido da realidade será rasgado e, em meio a esse vórtice, algo que estava velado surgirá nas garras da predadora.